Martelo de juiz. Fazer justiça.

“Quero fazer justiça!”

Calma!! Não é só você que quer “fazer justiça”. Esse é um desejo e sentimento de muita gente e, acredite, não é exclusivo só à espécie humana.

Caso tenha curiosidade, dê uma olhada no experimento do psicólogo Frans de Waal’s que mostra que esse sentimento também é inerente aos Chimpanzés. Legal, né?

Talvez baseado no quão comum é esse sentimento de justiça às pessoas, o psicólogo Abraham Maslow desenvolveu um estudo acerca das necessidades básicas humanas e descobriu, entre elas, a moralidade.

A moralidade e a justiça são de interesse de todas as pessoas; são alvos de uma busca diária de todos. Muitas vezes, estão muito próximas de nós, algumas vezes, nem tanto. Mas, o que exatamente é a justiça? “Fazer justiça” é uma atitude moral? Vale a pena “fazer justiça”? Por que não “fazer justiça”?

Neste post, você vai aprender um pouco mais sobre o conceito de justiça. Além disso, entenderá quando vale a pena “fazer justiça” e quando, talvez, essa não é a melhor opção.

O QUE É JUSTIÇA?

Justiça é um dos conceitos mais abstratos que existem. Isso porque, justiça, para nós, pode não ser justiça para você, que pode não ser justiça para o juiz. Esse conceito vem de muito tempo e sempre teve diferentes sentidos para diferentes pessoas.

O Código de Haburabi, por exemplo, responsável pela famosa Lei de Talião, trouxe embutido no conceito de justiça o ditado “olho por olho, dente por dente”.

Justiça, naquela época, era a punição dada a cada pessoa de acordo com o que ela havia feito. Entretanto, essa ideia foi a causa de tantos ciclos ininterruptos de vingança, que carregaram o ódio por várias gerações. Você, certamente, já assistiu a filmes ou a séries em que isso acontece, por exemplo, Game of Thrones. Em cada episódio, uma nova vingança é posta em ação.

Esse conceito evoluiu! Hoje, existem vários princípios constitucionais e tratados internacionais que protegem as pessoas e impedem a “justiça com as próprias mãos”. Isso, é claro, ressalvados casos restritos, como o da legítima defesa.

A verdade é que esses conceitos, quando apresentados nos livros, podem até ser bonitos. Mas… e quando você se sente injustiçado? Na prática, é muito provável que você, naturalmente, sinta raiva, tristeza, frustração e um sentimento de vingança.

Esses sentimentos podem trazer consequências, por exemplo, fazer com que você mova um processo contra alguém. O seu sentimento é legítimo, mas, será que vale a pena tentar “resolver” um conflito dessa forma?

A matemática tem a resposta para essa questão.

TEORIA DOS JOGOS: VALE A PENA FAZER JUSTIÇA?

O que é a Teoria dos Jogos?

A Teoria dos Jogos é uma teoria matemática que demonstrou qual estratégia as pessoas devem adotar para maximizar seus ganhos em diferentes situações do cotidiano, dentre elas, diante de um conflito.

Por muitos anos, considerava-se a melhor estratégia para resolver conflitos a competitiva (teoria de John van Neumann). Nela, o outro lado deveria ser visto como um adversário, sendo que eu deveria me preocupar tão somente em ganhar dele. Essa é exatamente a situação em que uma pessoa busca se vingar da outra, ou fazer justiça.

Mas… ocorre que John Nash comprovou, matematicamente, por meio de uma situação hipotética a que deu o nome de “Dilema do Prisioneiro”, que, no caso da ocorrência de um conflito em que exista uma relação continuada entre as partes, ou seja, uma relação presente e potencialmente futura, ser colaborativo é a melhor estratégia. A outra pessoa deve ser vista como um parceiro, e deve-se buscar uma solução que seja boa para ambos.

Ou seja, segundo a matemática, se, ao invés de buscar ganhar do outro, você optar por colaborar com o outro, você possui mais chances de maximizar os seus ganhos.

Justiça x Ganhos pessoais

Em outras palavras, a busca por “justiça”, da forma que comumente conhecemos, pode prejudicar os seus ganhos pessoais. Isso porque os sentimentos ruins, como raiva e vingança, podem guiar as suas decisões para prejudicar o outro, e não para te beneficiar.

Da mesma forma, buscar fazer “justiça” pode prejudicar a sociedade como um todo, considerando que isso fomenta um ciclo vicioso de vinganças e viola direito fundamentais do ser humano.

Como assim?

Pense, por exemplo, no regime militar brasileiro, que teve muitos casos envolvendo tortura e assassinato de pessoas. Por mais que atos muito graves tenham sido praticados, será que essas medidas são justificáveis?

O Direito entende que não, e é por isso que, embora a frase “bandido bom, é bandido morto” represente a “justiça” para alguns, ela não se aplica em nosso sistema. Há uma violação a direitos humanos fundamentais e, certamente, não é algo que representa a moralidade.

Vale destacar, ainda, que, além dos direitos humanos, existem estudos científicos que demonstram que o aumento da punição não diminui a reincidência de crimes. O caminho mais benéfico é o de educar, como faz de forma brilhante a APAC – Associação de Proteção e Assistência ao Condenado.

Por isso, é interessante se pensar em mudar o foco da justiça: ao invés de destiná-la à punição de alguns, porque não fazer dela um instrumento garantidor de direitos e, mais ainda, uma forma de satisfazer nossas reais necessidades?

 

Jogo de xadrez. Xeque mate. Fazer justiça.

E COMO FAZER ISSO?

Posições e interesses

Para entender melhor as formas e direções que a Justiça pode ter, dois conceitos podem te ajudar bastante. Vamos lá.

Exemplo: assim como você, nós odiamos os bandidos e a injustiça. Mas, o que pode ser feito diante disso?

  1. Utilizar estratégias competitivas e punitivas, que segundo a Teoria dos Jogos, não são as que garantem mais ganhos para as pessoas, ou;
  2. Utilizar estratégias colaborativas.

Para fazer a escolha entre esses dois caminhos, precisamos compreender: (i) o que é posição e (ii) o que é interesse.

De modo geral, sua posição é o que você acha que quer, seu desejo imediato, enquanto o seu interesse é o que você realmente quer, uma necessidade.

Como assim?

Posição é a ponta do iceberg, interesse é o que está abaixo.

Em um exemplo fictício, a sua posição pode ser odiar bandidos e querer que eles sejam simplesmente presos ou mortos, mas e o seu interesse? Ter qualidade de vida, segurança e bem estar social. A diferença está, ainda, no fato de que só focando no segundo, qual seja, nos interesses, podemos realmente resolver o problema em questão.

Quando você diz que “quer justiça”, por exemplo, essa é sua posição. Mas, o que tem por trás disso? O que você está sentindo? Qual a sua necessidade básica que foi violada? Existem outras formas para solucionar esse caso?

Com tudo isso em mente, você terá mais clareza do que fazer no seu caso. Será que vale a pena mover um processo na justiça? Isso te leva a atingir seus interesses e necessidades reais? Sempre se questione isso.

Talvez sim. Mas analise o caso como um todo, pense em suas alternativas e, sempre que possível, tente resolver consensualmente, porque essa é a forma mais barata e eficaz para solucionar conflitos.

Lembre-se: o conceito de justiça é abstrato. Se você terceirizar a solução do seu caso para um juiz, pode ser que ele decida de uma forma que você e os outros envolvidos não considerem justa. Por que vocês não conversam e tentam chegar a um acordo do que é o justo para vocês?

CONCLUSÃO

Mudou um pouco a sua perspectiva sobre o que pode ser justiça? É muito importante separarmos esse conceito dos nossos sentimentos e também de nossas crenças.

Afinal, vimos que o mais inteligente é buscar e praticar a justiça de forma a atender às nossas necessidades e resolver, de fato, os nossos problemas.

Justiça pode significar mais do que a sua escolha sobre como enxergar determinada situação, mas a sua escolha sobre como agir.

Pode, ainda, estar em vários outros aspectos. Toda a questão, então, gira em torno do que a limita: o respeito aos nossos direitos e garantias pessoais, como a vida.

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